O
texto desenvolvido nas linhas abaixo procura fazer uma interpretação do
fenómeno xitike no seio familiar, aliado ou consubstanciado aos tipos de
governação como redes sociais, desta interpretação, faz-se intencional levantar
um debate sobre as novas características a que esta forma de governação se
apresenta actualmente.
Para
começar, A ideia de governação não apresenta em si uma nova realidade, sempre
falou-se sobre governação. Segundo o Banco Mundial (1992), governação é o
exercício da autoridade, controle, administração, poder de governo, mas
precisando melhor, o Banco Mundial pressupõe que a governação é a maneira pela
qual o poder é exercido na administração dos recursos sociais, económicos de um
país visando o desenvolvimento. Por sua vez, Christoph Knill conceitua
Governação como modos de coordenar a acção individual, seja como hierarquias,
redes, associações ou mercados.
Desde
a crise do Estado de Providencia que o Estado deixou de ser o único provedor de
serviços e bens demandados pela sociedade, pelo que, começou-se a perceber que
o Estado não conseguia satisfazer em plenitude as demandas de bens e serviços
da sociedade. Assim, com a emergência do neoliberalismo e da economia de
mercado, o Estado passa de maior provedor de bens e serviços a sociedade para
mero regulador das relações económicas desenvolvidas por vários actores na
sociedade. É neste contexto, que emergem as redes sociais como um dos
mecanismos desenvolvidos pelas sociedades com vista a satisfazer as suas
necessidades, as que o Estado demonstra-se incapaz de as satisfazer.
A
rede social a que me refiro para ocaso de moçambique, é o Xitique, que tem como
principais características a flexibilidade no que diz respeito as trocas
monetárias, a confiança e sobretudo a solidariedade. Segundo o relatório da
USAID (1991) o Xitike é uma associação de poupança e de rotação de créditos
rotativos (ou mesmo ROSCA), a Rosca é uma associação de poupança informal de um
número relativamente pequeno de membros (tipicamente 4 a 40 pessoas),
geralmente trabalhando no mesmo lugar, vivendo mesma casa, bairro ou
compartilhando vínculos ou confianças comuns. Ademais, cada membro contribui
com um mesmo montante para um fundo comum num intervalo regular (de 7ou 14 dias
ou possivelmente uma vez por mês) com um membro diferente recebendo o fundo em
cada reunião.
Actualmente,
boa parte das famílias moçambicanas, assim como vários indivíduos com certos
laços que os unem, tem criado o Xitique. Em contextos familiares, o Xitique
tem-se manifestado com uma função manifesta, visando melhorar as condições de
vida dos seus membros, mas manifesta-se também com uma função latente, que
muitas vezes tem sido a fortificação dos laços familiares, fundados em uma
elevada aproximação dos mesmos.
De
princípio, pressupõe-se que o que distingue o Xitique do governo como actores
da governação é, como me referia anteriormente, a confiança a solidariedade, a
não existência de uma hierarquia, uma organização fundada na burocracia, leis
ou regras formais. Ultimamente observa-se uma outra realidade no contexto do
xitike, existe uma tendência a normalização ou regulamentação deste mecanismo
de governação através de estatutos, isto por parte dos seus membros. Esta nova
roupagem do xitique mostra-se com tendências a assemelhar-se a do Governo, e
colocando em causa a confiança e a solidariedade, e até a pessoalidade, que são
princípios norteadores desta forma de governação.
Nestas
circunstâncias, observa-se que a função latente do xitike, a que consiste na
fortificação dos laços familiares, até certo ponto pode mostrar-se com
tendências a enfraquecer, pelo que a confiança e a solidariedade, a
pessoalidade, que são os princípios do xitike, e que de certa forma, fortificam
os laços familiares, podem ser debilitados pela normalização formal (através
dos estatutos) da actividade do xitike, isto porque, a impessoalidade ou
imparcialidade, a obrigatoriedade são características fundamentais das regras
formais. Com a emergência dos estatutos no xitike, a pessoalidade, que é uma das
características primárias desta rede social, pode ser posta em causa, colocando-se
no seu lugar a impessoalidade, e a obrigatoriedade, o que pode ate certo pode
afetar negativamente as relações afetivas que se estabelecem no seio familiar.
Ademais,
essa nova roupagem do xitike pode ser vista em um sentido vantajoso, na medida
em que pode fortificar a função manifesta do xitike, assim como a função
latente, despertando aos membros da família o sentido de mais responsabilidade
e seriedade relativamente ao xitike, desta feita garantindo maior harmonia no
seio familiar.

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