terça-feira, 7 de outubro de 2014

Governacao como redes sociais: O Xitike e a sua nova roupagem

Governação como redes sociais: O Xitike e a sua nova roupagem
O texto desenvolvido nas linhas abaixo procura fazer uma interpretação do fenómeno xitike no seio familiar, aliado ou consubstanciado aos tipos de governação como redes sociais, desta interpretação, faz-se intencional levantar um debate sobre as novas características a que esta forma de governação se apresenta actualmente.
Para começar, A ideia de governação não apresenta em si uma nova realidade, sempre falou-se sobre governação. Segundo o Banco Mundial (1992), governação é o exercício da autoridade, controle, administração, poder de governo, mas precisando melhor, o Banco Mundial pressupõe que a governação é a maneira pela qual o poder é exercido na administração dos recursos sociais, económicos de um país visando o desenvolvimento. Por sua vez, Christoph Knill conceitua Governação como modos de coordenar a acção individual, seja como hierarquias, redes, associações ou mercados.
Desde a crise do Estado de Providencia que o Estado deixou de ser o único provedor de serviços e bens demandados pela sociedade, pelo que, começou-se a perceber que o Estado não conseguia satisfazer em plenitude as demandas de bens e serviços da sociedade. Assim, com a emergência do neoliberalismo e da economia de mercado, o Estado passa de maior provedor de bens e serviços a sociedade para mero regulador das relações económicas desenvolvidas por vários actores na sociedade. É neste contexto, que emergem as redes sociais como um dos mecanismos desenvolvidos pelas sociedades com vista a satisfazer as suas necessidades, as que o Estado demonstra-se incapaz de as satisfazer.
A rede social a que me refiro para ocaso de moçambique, é o Xitique, que tem como principais características a flexibilidade no que diz respeito as trocas monetárias, a confiança e sobretudo a solidariedade. Segundo o relatório da USAID (1991) o Xitike é uma associação de poupança e de rotação de créditos rotativos (ou mesmo ROSCA), a Rosca é uma associação de poupança informal de um número relativamente pequeno de membros (tipicamente 4 a 40 pessoas), geralmente trabalhando no mesmo lugar, vivendo mesma casa, bairro ou compartilhando vínculos ou confianças comuns. Ademais, cada membro contribui com um mesmo montante para um fundo comum num intervalo regular (de 7ou 14 dias ou possivelmente uma vez por mês) com um membro diferente recebendo o fundo em cada reunião.
Actualmente, boa parte das famílias moçambicanas, assim como vários indivíduos com certos laços que os unem, tem criado o Xitique. Em contextos familiares, o Xitique tem-se manifestado com uma função manifesta, visando melhorar as condições de vida dos seus membros, mas manifesta-se também com uma função latente, que muitas vezes tem sido a fortificação dos laços familiares, fundados em uma elevada aproximação dos mesmos.
De princípio, pressupõe-se que o que distingue o Xitique do governo como actores da governação é, como me referia anteriormente, a confiança a solidariedade, a não existência de uma hierarquia, uma organização fundada na burocracia, leis ou regras formais. Ultimamente observa-se uma outra realidade no contexto do xitike, existe uma tendência a normalização ou regulamentação deste mecanismo de governação através de estatutos, isto por parte dos seus membros. Esta nova roupagem do xitique mostra-se com tendências a assemelhar-se a do Governo, e colocando em causa a confiança e a solidariedade, e até a pessoalidade, que são princípios norteadores desta forma de governação.
Nestas circunstâncias, observa-se que a função latente do xitike, a que consiste na fortificação dos laços familiares, até certo ponto pode mostrar-se com tendências a enfraquecer, pelo que a confiança e a solidariedade, a pessoalidade, que são os princípios do xitike, e que de certa forma, fortificam os laços familiares, podem ser debilitados pela normalização formal (através dos estatutos) da actividade do xitike, isto porque, a impessoalidade ou imparcialidade, a obrigatoriedade são características fundamentais das regras formais. Com a emergência dos estatutos no xitike, a pessoalidade, que é uma das características primárias desta rede social, pode ser posta em causa, colocando-se no seu lugar a impessoalidade, e a obrigatoriedade, o que pode ate certo pode afetar negativamente as relações afetivas que se estabelecem no seio familiar.
Ademais, essa nova roupagem do xitike pode ser vista em um sentido vantajoso, na medida em que pode fortificar a função manifesta do xitike, assim como a função latente, despertando aos membros da família o sentido de mais responsabilidade e seriedade relativamente ao xitike, desta feita garantindo maior harmonia no seio familiar.



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