domingo, 15 de março de 2015

“Músicos moçambicanos firmam parceria e chamam mulheres de feiticeiras”


“Músicos moçambicanos firmam parceria e chamam mulheres de feiticeiras”

A música moçambicana tem vinho a registar avanços quantitativos e qualitativos nos últimos tempos. Prova disso são as inúmeras produções musicais e o seu crescente consumo por parte dos próprios moçambicanos assim como do mundo a fora. Mais do que uma combinação simultânea e sucessiva de sons, com ordem, equilíbrio e proporção, dentro do tempo, a música é um reflexo da alma, de expressão da convivência diária de um povo, um país, uma realidade, e é ao mais alto sentido um factor de união e desenvolvimento de unidade de um povo. É sob este prisma que a música moçambicana ou feita por moçambicanos se desenvolve e se consolida no território nacional e estrangeiro.
Porque a união das forças é um fundamento vital para o desenvolvimento de qualquer acção ou projecto que se pretende plausível. O sucesso no ramo musical tem sido também aliado as parcerias que os músicos vêm desenvolvendo entre eles, numa consolidação de sinergias em talento com vista ao alcance de um sucesso musical.

Bem, o artigo aqui desenvolvido, é fruto de indagação relativamente ao último trabalho musicar da parceria feita entre os músicos moçambicanos Ziqo, Mr Kuka, Hernani, Duas Caras e Dice, ambos artistas de renome, que sobre os microfones já vem dando o ar da sua graça, em estilos musicais distintos e sobre vários temas que retractam a vivência do povo moçambicano. Como fruto da parceria entre estes, foi servida aos ouvidos do povo moçambicano e que Sá ate dos povos da diáspora a musica intitulada A VA VASSATI VA LOYA, o tema foi descrito na língua changana (típica do sul de Moçambique), que traduzindo na linha portuguesa significa AS MULHERES SÃO FEITICEIRAS/ENFEITIÇAM.
O ritmo da música deslisa sobre as “batidas” do estilo musical Pandza, misturado em/com instrumentais do famoso sucesso musical LOYAL da parceria dos norte-americanos Chris Brown, Lil Wayne e Tyga.
Deslizando ao ponto, com a música, os artistas deixam a transparecer ou tentam revelar-nos que as mulheres são demasiadamente interesseiras, atraem-se pelos pareceres materiais e conseguem facilmente o que querem, por conta disso são feiticeiras, pelo que, em jeito de corro ouve-se: Quando as pitas querem mola não há nada a fazer conta elas, a va vassati va loya.
Bem, tentemos descortinar o conceito feitiçaria/feiticeira para melhor entender o que os nossos artistas nos tentam transmitir ou o que transmitem mas sem saber o seu alcance ou sentido real.
Segundo o novo dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (1986), feitiçaria é substantivo feminino que significa emprego de feitiços. Por sua vez, feitiço é um substantivo masculino que significa coisa feita por arte magica ou por feiticeiros.
Por sua vez, Inês Raimundo (2009) citando Couceiros (2004) argumenta que feitiçaria é uma acusação moral, em qualquer sociedade, que funda uma relação de desconfiança entre pessoas que se sentem prejudicadas por alguém que elas acusam de lhes fazer mal, com auxílio de poderes mágicos.
Raimundo afirma ainda que os feiticeiros são geralmente pessoas indesejáveis e por isso, muitas vezes descriminadas e maltratadas por terem alcançado uma certa riqueza em ralação aos demais dentro da mesma comunidade. Essa percepção vem ao facto de se acreditar que estas teriam chegado a esse estado pelo uso das forças de outras pessoas.
Em Moçambique assim como em africa em geral, este assunto tem sido tratado com muita delicadeza devido a sua complexidade. Estudos têm mostrado que em maior parte dos casos de acusação por feitiçaria tem recaído sobre as mulheres, principalmente as idosas, e pela gravidade da acusação, em muitos casos tem dado em destruição das relações entre o acusado e o acusador e ate em mortes.Das leituras feitas ao conteúdo da música conteúdo ta musica emergem algumas indagações
Primeiro, estarão os artistas querer dar a entender que toda mulher ou “pitas” como são apelidadas na música são interesseiras? Em segundo, estarão os artistas querer dar a entender que toda geração actual de mulheres é feiticeira? Terceiro, Qual a ligação que existe e seus níveis entre as supostas mulheres interesseiras e as práticas da feitiçaria? Quarto, querem os artistas dar a entender que as mães ou futuras mães dos seus filhos são feiticeiras?.
A música aqui em questão é um caso claro de acusação moral as mulheres no geral e elucida-nos um dos tipos de artistas/músicos que temos e força-nos a questionarmo-nos mais uma e inúmeras próximas vezes que formos a depararmo-nos com casos como estes sobre que músicos/artistas sociedade nós temos e que sociedade queremos para o futuro.



Xande Zandamela

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Um apelo a ÉTICA à geração ON LINE



Um apelo a ÉTICA à geração ON LINE

O texto desenvolvido nas linhas abaixo é fruto de uma inquietação minha e que fora fortalecida com o debate organizado pelo IREX nas suas instalações, sob o tema “Redes sociais e jornalismo: oportunidades e desafios para os mídea ” do qual tive oportunidade de fazer-me presente.
O raciocínio aqui por mim explanado ganha suporte no conceito de ética trazido por Robert B. Denhardat (1995), o qual pressupõe que a ética é um sistema pelo qual se certifica aquilo que é certo e aquilo que é errado e se age de acordo com o que é certo, ademais, a ética implica o uso da razão para determinar o curso adequado de cada acção humana.
Não obstante a isso, João Casar (2008), afirma que a ética é sempre uma prática, mas mais do que isso, é mesmo uma aposta de adesão pessoal. O ponto de partida é sempre ser ético. Por os meios, procurar, desejar ser bom. A ética parte de uma vontade bem orientada, firme e fiel de ser bom. Assim, de forma resumida, percebe-se que era ético é agir racionalmente, orientando-se a fazer o que é certo. Mas o que é certo? Neste contexto, o certo estaria consubstanciado a actitudes orientadas para o bem e que não ferem em momento algum a outrem.
Trago aqui o conceito de ética com o objectivo que fazer o casamento para com as redes sociais. O fundador do Facebook, Mark Zuckeberg afirma que “neste momento, com as redes sociais e outras ferramentas online, 500 milhões de pessoas tem um meio pelo qual possam expressar o que pensam e o que lhes vai a mente”. Em Moçambique estima-se que dos aproximadamente 23 milhões de habitantes, apenas aproximadamente 5 % da população tem acesso a internet.
Não obstante a isso, mesmo em número relativamente reduzido comparativamente ao total de habitantes do país, a internet e as redes sociais tem se revelado muito potentes, quer sob o ponto de vista de mecanismo de exercício da liberdade de expressão, estabelecimento e fortalecimento das relações pessoais, fortalecimento e expansão de negócios pelo país e no mudo a fora. É tudo característico da globalização.
Existe actualmente em Moçambique um novo conceito, mas com génese nos EUA. Este conceito é orientado para o fortalecimento da voz e expressão do cidadão, o conceito de cidadão-repórter, que fora implementado pelo Olho do Cidadão (organização da qual faço parte). O cidadão-repórter é um individuo sem formação académica na área de jornalismo com uma vontade enorme de participação na esfera social, apresenta conteúdos informativos (de texto, imagem e som), onde exprime novas perspectivas e informação que, de outro modo não teria visibilidade na esfera pública (Olho do Cidadão).
O cidadão-repórter tem as redes sociais e outras plataformas online como campo de exposição dos seus relatos e reportagens. Vários são os cidadãos moçambicanos que vem exercendo o trabalho de cidadão-repórter, na maioria dos casos de forma inconsciente, isto é, não sabendo que é um cidadão-repórter. Nas redes sociais a informação circula muito rápido, muitas vezes muito mais rápido que nos meios de comunicação tradicionais, pelo que, o cidadão presencia um certo fenómeno de interesse público tira a fotografia e faz o relato e publica na rede, e muito rapidamente milhões de pessoas tem acesso a informação por ele veiculada.
A meio disso, o que é veiculado nas redes sociais representa a forma de ser e estar de um povo, e o povo moçambicano não é exceção (mesmo com o acesso reduzido a internet), é de certa forma representado nas redes sociais e para o mundo. Ademais, tem se tornado deveras preocupante como alguns cidadão tem veiculado a informação nas redes sociais, percebe-se que a ética em algum momento é soterrada pela vontade por vezes enorme de fazer chegar a informação a comunidade online com muita rapidez, e aliado a isso, está o querer ganhar protagonismo a meio de vários seguidores, amigos e a comunidade online em geral.
Em momentos, testemunhamos casos como o do pastor Magaia, a morte do Danger man e vários outros para não prolongar. Até certo ponto, o preocupante não chega a ser a informação em sí, mas a forma como a informação é veiculada, as imagens tem sido deveras chocantes, que de certo modo podem e sem dúvidas ferem a sensibilidade de muitos cidadãos, e em particular a família e outras pessoas mais próximas do individuo ou lesado objecto de noticia. Em cassos como estes, é mais que evidente que a ética andou distante, nestes termos, faz-se necessário que sejam resgatados os valores éticos, que a racionalidade sobreponha-se a emoção, que a informação seja veiculada depois de confirmada a sua veracidade e uma posterior reflexão das possíveis consequências que a mesma poderá causar a várias sensibilidades que também se servem das redes sociais.

Enfim, as redes sociais são um mecanismo potente de disseminação de informação útil e de utilidade pública, o que faz-se necessário é o casamento entre estas plataformas tecnológicas e os valores éticos, esta é uma fórmula vantajosamente consistente que nos permitirá tirar mais valor acrescido das redes sociais.

O errado é errado mesmo que todo mundo esteja fazendo
O certo é certo mesmo que ninguém esteja fazendo” de Filipa Amadiji


terça-feira, 21 de outubro de 2014

Governo de Unidade Nacional! Com que fundamento?





Governo de Unidade Nacional! 
Com que fundamento?
Passam-se 24 anos depois das reformas político-legais ocorridas em 1990 com as alterações na constituição de 1975. A constituição de 1990 trouxe a Moçambique a separação de poderes, a governação local e acima de tudo a democracia, consubstanciada no multipartidarismo. Surgia então com esta constituição, um novo cenário político em Moçambique, o jogo político estendia-se a mais de um actor (o partido no poder). Desde a introdução do multipartidarismo em Moçambique foram realizadas cinco eleições gerais, as primeiras em 1994, as segundas em 1999, as terceiras em 2004, as quartas em 2009 e as quintas bem recentemente realizadas no dia 15 de Outubro de 2014.
Desde a introdução do multipartidarismo em moçambique até o ano de 2009, o cenário político fora marcado pela existência de duas forças políticas activas, a FRELIMO e a RENAMO, este ultimo sempre lutara por um lugar mais expressivo na arena governamental do país, tendo conseguido não mais que alguns assentos parlamentares e direções de algumas autarquias, que viera a perde-las posteriormente. Em 2009 surge no país mais uma força política activa, o MDM, este partido viera acrescer mais expressão na disputa política do país, tendo conseguido alguns assentos parlamentares com as eleições de 2009. Deste modo, com as eleições de 2009 a Assembleia da República estendia-se a mais de dois actores.
Os resultados das eleições nunca foram assumidos como justos pelo maior partido da oposição (a RENAMO), sob alegação de ocorrência de fraudes generalizadas. Um particular a ter em conta nas ultimas eleições ocorridas no dia 15 é que para alem da RENAMO como antigo reivindicador dos resultados, associa-se então a terceira maior força política do país reclamando do resultados preliminares e alegando ter havido irregularidades generalizadas, com maior enfoque a fraudes.
Afonso Dhlakama e Daviz Simango, presidentes dos maiores partidos da oposição, RENAMO e MDM respectivamente já apareceram a público mostrar sua posição relativamente aos resultados eleitorais até então divulgados. As duas personalidades compartilham a opinião de que o processo eleitoral como um todo não foi transparente, tendo sido caracterizado por tumultos e fraudes generalizadas.
Citando o Txeka, em conferência de imprensa realizada no dia 18 de Outubro em Maputo, o presidente da RENAMO, dissera que “não houve eleições, houve fantochada”, em um sinal claro de reprovação do processo eleitoral como um todo. Aliado a isso, Dhlakama afirmara ainda que a solução dos problemas passava por negociações para com o Governo, questionado pelo Txeka se as negociações fundamentavam-se na criação de um governo de coligação, este respondera nos seguintes termos “NÃO SEI”.
Os pronunciamentos do presidente da RENAMO relativamente à “negociações” tem suscitado vários debates e suposições, a mais frequente e expressiva é a de que o Dhlakama queira negociar um governo de coligação ou governo de unidade nacional. Mas então o que é isso de governo de coligação?? É um governo composto por actores provenientes de mais de um partido ou coligações políticas, este governo é decorrente de acordos entre os as coligações políticas ou demais actores políticos. Este tipo de governo é criado com o objectivo de superar divisões políticas ou mesmo éticas profundas em um país.
Propor um governo de coligação (se esse for o caso) pode mostrar-se ainda prematuro pois, os resultados oficiais não foram ainda divulgados, acima de tudo, espera-se que os partidos da oposição mostrem provas concretas da ocorrência de fraudes, encaminhando-as às instâncias de gestão do contencioso eleitoral, e caso sejam provadas as alegações da oposição, sendo necessário recorrer-se a uma segunda volta das eleições. Ademais, a criação de um governo de coligação vem a significar não mais que a desvalorização de todo processo eleitoral, pelo que, este governo não é criado na base da logica eleitoral e legal, mas sim na base de acordos entre os actores políticos, não envolvendo desta forma o cidadão, que é a peça chave da manutenção e desenvolvimento do processo democrático de um país.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

O Executivo patrao do Legislativo e do Judiciario

O Executivo patrão do Legislativo e do Judiciario

Moçambique celebrou no presente ano, 39 anos de independência. Independência perante a colonização portuguesa, 39 anos significam mudanças e avanços profundos, com uma prespectiva de desenvolvimento.
Logo apos a proclamação da independência em 1975, foram deliberadas várias decisões incidindo sobre diversas áreas, quer económica, política, social e cultural, com vista a construção de uma nação solida e prospera de moçambicanos.
Com a independência nacional em Junho de 1975, desenvolveram-se ao povo moçambicano os direitos e as liberdades fundamentais (CRM, 2004). Desenvolve-se direitos e liberdades outrora renegados pelo explorador colonial.
No período após independência, isto é, referindo-me exatamente ao período entre 1975 e 1990, em Moçambique, não se falava em separação de poderes, e claro, muito menos existia a normalização do princípio de separação de poderes, polo que, a Constituição da República de 1975 não continha este princípio em nenhum dos seus textos.
Com as pressões feitas ao governo, quer internas assim como externas, fez-se necessário rever a Constituição da República em 1990, albergando o multipartidarismo e a separação de poderes como princípios fundamentais do Estado de Direito e Democrático, tal como pressupõe a Constituição da Republica de 2004: A Constituição de 1990 introduziu o Estado de Direito democrático, alicerçando na separação e interdependência dos poderes e no pluralismo, lançando os parâmetros estruturais da modernização, contribuindo de forma decisiva para a instauração de um clima democrático que levou o país à realização das primeiras eleições multipartidárias.
Ademais, o Titulo V, Capítulo Único, artigo 133, pressupõe que: são órgãos de soberania o Presidente da República, a Assembleia da República, o Governo, os Tribunais e o Conselho Constitucional. Ainda no mesmo titulo e capitulo, o artigo 134 pressupõe que: os órgãos de soberania assentam nos princípios de separação e interdependência de poderes consagrados na Constituição e devem obediência à Constituição e às leis.
Pressupõe-se que o sistema político vigente em Moçambique é o presidencialismo, este sistema tem como característica principal a separação de poderes, entre o Legislativo, Executivo e Judiciário, onde não existe interferência entre eles mas sim interdependência, tal como pressupõe a Constituição da República de Moçambique de 2004.
Nas palavras de THAI, Benedito Hama (1999), a legislatura é um órgão institucional de governação que reúne representantes das diferentes regiões do país, a fim de assegurar que o processo de governação seja envolvente, e em que todos membros são formalmente iguais em estatuto. Para o caso de Moçambique, a função legislativa é por excelência desempenhada pela Assembleia da República, composta por 250 deputados representantes dos três maiores partidos do país, nomeadamente Frelimo, Renamo e MDM.
A Assembleia da República de Moçambique poderíamos chama-la de Assembleia inibida, que nas palavras de THAI (1999), seria aquela em que existe um desequilíbrio marcado em que as estruturas do partido dominante tem muitas influencias sobre a Assembleia, mas não possuem domínio total e completo. Ainda segundo este autor, esta situação, é comum em regimes monopartidários populistas mobilizadores, ou em regimes em que, apesar de serem multipartidários, como é o caso de Moçambique, um partido domina a arena política. Ademais, neste caso, os membros da Assembleia, em particular os deputados do partido no poder, sentem-se relutantes em criticar o governo, a ideologia é rígida e qualquer caso de deslealdade, é provável se punido.
Um outro ponto a ter em conta ao falar da Assembleia da Republica e os deputados que a compõem, tem a ver com o foco dos deputados, é notório que em Moçambique o foco dos deputados é para com o partido e não para com os constituintes e com o circulo eleitoral a que representam, existe sobre eles uma forte ideologia, mostrando-se muito cautelosos nas suas intervenções, procurando evitar distanciar-se daquela que é a posição do partido perante um determinado assunto a debater.
Para THAI (1999), o executivo, que representa o poder executivo, é o órgão a que cabe dirigir o Estado, formular as principais políticas e planos de acção a fim de assegurar que o seu país atinja os seus objectivos de estabilidade, bem-estar e desenvolvimento social, económico e político. O poder Executivo em Moçambique é representado pelo Presidente da República e pelo Governo ou Conselho de Ministros.
Para melhor entender os contornos da separação de poderes em um determinado país, faz-se necessário conhecer o sistema político vigente nesse país. Para o caso de Moçambique, pressupõe-se que o sistema político vigente é o presidencialista, que tem como característica fundamental a separação de poderes, entre o Legislativo, Judiciário e o Executivo.
O presidencialismo pressupõe em uma das suas características que o Presidente da República não deve dissolver a Assembleia da República e a Assembleia não pode dissolver o Executivo. Ademais, apesar do equilíbrio entre os poderes da Assembleia e do Executivo, a Assembleia continua a ser o órgão que legitima o sistema. Portanto, o Executivo, deve acatar as resoluções da Assembleia a seu respeito. Cabe as instituições judiciais arbitrar as disputas graves entre os dois órgãos (THAI, 1999).
Na mesma linha de ideias de THA, BASTOS, Fernando Loureiro (1999) refuta que o presidencialismo defende a autonomia entre o Executivo e o Parlamentarismo, ou seja, entre o Presidente e o Congresso, que é a Assembleia para o caso de Moçambique, em termos tais que, nem o Presidente pode dissolver o Congresso, nem este pode demitir o Executivo.
BASTOS argumenta ainda que o presidencialismo é marcado pela existência entre o Presidente e o Congresso de uma relação de equilíbrio, na qual através de um sistema de pesos e contrapesos (checks and balances), se impede que o papel de impulsionador e centro da vida política que o presidente desempenha corra o risco de degenerar em sistema autoritário de concentração de poderes.
Olhando para a realidade moçambicana, deparamo-nos com um choque aos pressupostos do presidencialismo acima citados, ora vejamos; a Constituição da República de Moçambique de 2004, no seu Titulo VI, Capitulo II, Artigo 159, alínea e), pressupõe que:
Compete ao Chefe de Estado no exercício das suas funções dissolver a Assembleia da República nos termos do artigo 188.
O artigo 188, n◦.1 pressupõe que: A Assembleia da República pode ser dissolvida, pelo Presidente da República caso rejeite, após debate, o Programa do Governo; ademais, o n.2 do mesmo artigo pressupõe que: O Presidente da República convoca novas eleições legislativas, nos termos da Constituição.
Nestes termos, o que percebe-se é que o Presidente da República, que é um órgão que representa o poder executivo, interfere sobre maneira no poder legislativo, que é representado pela Assembleia da República. Ademais, imaginando em circunstâncias em que houvesse um equilíbrio entre os partidos políticos na Assembleia da Republica, em que um partido da oposição pusesse a baixo o programa do governo, o Presidente da República, com a prerrogativa que tem poderia ao seu bem entender dissolver o parlamento. O que pode fazer-nos acreditar que o mesmo ainda não tenha acontecido seria o facto de tudo estar a favor do partido no poder, pela maioria absoluta que o representa na Assembleia da República.
Em reforço ao escrito acima, Jorge Navais citado por BASTOS (1999) pronuncia-se nos seguintes termos: a eventual consonância política entre a maioria parlamentar e o Presidente tende a degenerar em sistema autoritário de concentração de poderes na pessoa do presidente, já que o Parlamento deixa de funcionar como contra-peso dos poderes presidenciais.
Ademais, a interferência do Presidente não se limita apenas ao poder Legislativo, pelo que, no termos do Titulo VI, Capitulo II, Artigo 159, alínea g), da Constituição da República: Compete ao Chefe do Estado no exercício da sua função; nomear o Presidente do Tribunal Supremo, o Presidente do Conselho Constitucional, o Presidente do Tribunal Administrativo e o Vice-Presidente do Tribunal Supremo
Ainda no mesmo artigo, a alínea h pressupõe que: Compete ao Chefe do Estado no exercício da sua função; nomear, exonerar e demitir o Procurador-Geral da República e o Vice-Procurador-Geral da República.
Ora vejamos, BASTOS (1999) defende que a existência de uma relação de equilíbrio entre o Presidente e o Congresso, através de um sistema de contra-pesos (checks and balances) resulta na existência de um poder judicial independente, em que designadamente através dos poderes de fiscalização da constitucionalidade das leis, os tribunais constituem-se como importante limite a eventuais casos ou tendências para o abuso de poder.
Não existindo o equilíbrio na relação entre o Presidente da República e a Assembleia da República dificilmente se tem um poder judicial independente, tal como é o caso de Moçambique. O Presidente da República nomeando os órgãos mais altos do judiciário desperta sobre eles a uma limitação dos seus actos, principalmente em circunstâncias em que se trate de fiscalizar as ações do próprio Presidente, em outras palavras diria que estamos perante uma situação em que um patrão nomeia um funcionário a uma função a que este tem de fiscalizar as ações do próprio patrão.
O Titulo IV, Capitulo IV, artigo 131 da Constituição da República pressupõe que: a execução do orçamento do Estado é fiscalizada pelo Tribunal Administrativo e pela Assembleia da República, a qual, tendo em conta o parecer daquele Tribunal, aprecia e delibera sobre a Conta Geral do Estado.
Ora vejamos, o Tribunal Administrativo e a Assembleia da República, tal como pressupõe a citação acima, tem como uma das suas funções principais a fiscalização da execução do orçamento do Estado, neste caso, que é executado pelo Presidente e o seu Governo. Ademais, percebamos o seguinte: o Presidente do Tribunal Administrativo, assim como os juízes Conselheiros do Tribunal Administrativo são também nomeados pelo Presidente da República, deixando assim a probabilidade de existência de uma margem de parcialidade nas suas ações de fiscalização das ações do Executivo em particular.
Ademais, a ação de fiscalização procedida pela Assembleia da República deixa também uma forte probabilidade de existência de uma margem elevada de parcialidade no exercício desta função, pelo que, tal como me referia em um dos parágrafos acima, a Assembleia da República é de certo modo controlada pelo Partido no Poder e com a bancada maioritária neste órgão, e atendendo e considerando que as pronunciações dos deputados seguem a uma logica partidária, mostrando-se rara a probabilidade de um dos deputados contrariar a posição do seu partido nas suas intervenções. Querendo com isso dizer que, caso um dos deputados ou mesmo a bancada maioritária do partido no poder pronuncie-se contra algumas alguns pontos referentes a execução orçamental, o Presidente da República e o Governo irão entender isso como afronta e demonstração de pertencer ao lado contra.
De um modo geral, esta é a situação a que se vivencia em Moçambique, a de não existência total e efetiva da separação de poderes entre o Legislativo, Executivo e Judiciário, onde temos um “Executivo patrão do Legislativo e Judiciário”



Governacao como redes sociais: O Xitike e a sua nova roupagem

Governação como redes sociais: O Xitike e a sua nova roupagem
O texto desenvolvido nas linhas abaixo procura fazer uma interpretação do fenómeno xitike no seio familiar, aliado ou consubstanciado aos tipos de governação como redes sociais, desta interpretação, faz-se intencional levantar um debate sobre as novas características a que esta forma de governação se apresenta actualmente.
Para começar, A ideia de governação não apresenta em si uma nova realidade, sempre falou-se sobre governação. Segundo o Banco Mundial (1992), governação é o exercício da autoridade, controle, administração, poder de governo, mas precisando melhor, o Banco Mundial pressupõe que a governação é a maneira pela qual o poder é exercido na administração dos recursos sociais, económicos de um país visando o desenvolvimento. Por sua vez, Christoph Knill conceitua Governação como modos de coordenar a acção individual, seja como hierarquias, redes, associações ou mercados.
Desde a crise do Estado de Providencia que o Estado deixou de ser o único provedor de serviços e bens demandados pela sociedade, pelo que, começou-se a perceber que o Estado não conseguia satisfazer em plenitude as demandas de bens e serviços da sociedade. Assim, com a emergência do neoliberalismo e da economia de mercado, o Estado passa de maior provedor de bens e serviços a sociedade para mero regulador das relações económicas desenvolvidas por vários actores na sociedade. É neste contexto, que emergem as redes sociais como um dos mecanismos desenvolvidos pelas sociedades com vista a satisfazer as suas necessidades, as que o Estado demonstra-se incapaz de as satisfazer.
A rede social a que me refiro para ocaso de moçambique, é o Xitique, que tem como principais características a flexibilidade no que diz respeito as trocas monetárias, a confiança e sobretudo a solidariedade. Segundo o relatório da USAID (1991) o Xitike é uma associação de poupança e de rotação de créditos rotativos (ou mesmo ROSCA), a Rosca é uma associação de poupança informal de um número relativamente pequeno de membros (tipicamente 4 a 40 pessoas), geralmente trabalhando no mesmo lugar, vivendo mesma casa, bairro ou compartilhando vínculos ou confianças comuns. Ademais, cada membro contribui com um mesmo montante para um fundo comum num intervalo regular (de 7ou 14 dias ou possivelmente uma vez por mês) com um membro diferente recebendo o fundo em cada reunião.
Actualmente, boa parte das famílias moçambicanas, assim como vários indivíduos com certos laços que os unem, tem criado o Xitique. Em contextos familiares, o Xitique tem-se manifestado com uma função manifesta, visando melhorar as condições de vida dos seus membros, mas manifesta-se também com uma função latente, que muitas vezes tem sido a fortificação dos laços familiares, fundados em uma elevada aproximação dos mesmos.
De princípio, pressupõe-se que o que distingue o Xitique do governo como actores da governação é, como me referia anteriormente, a confiança a solidariedade, a não existência de uma hierarquia, uma organização fundada na burocracia, leis ou regras formais. Ultimamente observa-se uma outra realidade no contexto do xitike, existe uma tendência a normalização ou regulamentação deste mecanismo de governação através de estatutos, isto por parte dos seus membros. Esta nova roupagem do xitique mostra-se com tendências a assemelhar-se a do Governo, e colocando em causa a confiança e a solidariedade, e até a pessoalidade, que são princípios norteadores desta forma de governação.
Nestas circunstâncias, observa-se que a função latente do xitike, a que consiste na fortificação dos laços familiares, até certo ponto pode mostrar-se com tendências a enfraquecer, pelo que a confiança e a solidariedade, a pessoalidade, que são os princípios do xitike, e que de certa forma, fortificam os laços familiares, podem ser debilitados pela normalização formal (através dos estatutos) da actividade do xitike, isto porque, a impessoalidade ou imparcialidade, a obrigatoriedade são características fundamentais das regras formais. Com a emergência dos estatutos no xitike, a pessoalidade, que é uma das características primárias desta rede social, pode ser posta em causa, colocando-se no seu lugar a impessoalidade, e a obrigatoriedade, o que pode ate certo pode afetar negativamente as relações afetivas que se estabelecem no seio familiar.
Ademais, essa nova roupagem do xitike pode ser vista em um sentido vantajoso, na medida em que pode fortificar a função manifesta do xitike, assim como a função latente, despertando aos membros da família o sentido de mais responsabilidade e seriedade relativamente ao xitike, desta feita garantindo maior harmonia no seio familiar.